a minha casa é linda de morrer durante o dia
mas nunca lá estou.
há uma ânsia de sair logo que possível como se ficar em casa fosse perder tempo de vida. em casa parecem estar sediadas as tarefas. (fora de casa também). em casa durante o dia, de sol, imagino que maior felicidade pode encontrar-me lá fora - melhor saberão os livros, os jornais, os escritos. em casa durante o escurinho tendo a querer apagar-me também, já pouco justifica a minha existência e agride-me e angustia-me esse vazio que não é um espaço mas uma ausência. de mim e de completude. sinto-me sozinha, ou eu ou o outro. alguém me rende se eu não estiver mas ninguém me acompanha ou impulsiona quando estou. e eu gostava de viver em conjunto, gostava de viver mais do que eu sou. eu sou muito pouco e sou durante pouco tempo, não tenho força, iludo-me e canso-me com que faço e com o que desejo. estranho, ou clarificador, é o facto de só passadas 3 semanas de abandono laboral recomeço eu a conseguir elaborar uma respiração. recomeço a sentir o ar a entrar, o oxigénio a alimentar as células e o corpo a receber o alimento vital. é no entanto essencial que se consiga respirar enquanto se desempenham todas as funções que todas as pessoas vivem desempenhando. há uns dias quando tentava explicar o meu desânimo só me ouvi referir as missões que quase todas as Mulheres levam a cabo. "sabe, levanto-me às 6h, passo 3h3 em viagens, chego a casa sozinha com o meu filho, lavo-o, alimento-o e deito-o. quando isto acaba, estou muito cansada e frustrada porque não brinquei com ele o suficiente, porque o jantar foram restos e porque tenho o chão da casa cheio de pelo e pegadas de cão, para além de não ter alimentos para confeccionar refeições para os seguintes dias nem me ocorrer sequer uma receitazinha. também me apetece enfiar a cabeça na almofada para esquecer que a minha cabeça não consegue ler, que adormeço aos 10 mn de um qualquer filme e que já não sei falar sobre o que se passa no país, que não estou com os meus amigos se não por sms ou emails. sinto que talvez não tenha a capacidade para ser um crescido, um adulto, talvez me faltem skills para isso, talvez tenha crescido com uma ideia de capacidades minhas que não existem - mesmo na natureza nem todos são capazes, há a selecção natural, disse alguém. continuo a ter muitos ciúmes da minha irmã, apetece-me ter o apoio paterno que ela aparenta ter, apetece-me ser mimada e protegida. mas eu já passei para a outra fase, já devia ter as reservas de mimo e protecção e cuidado suficientes para que os meus joelhos não fraquejassem com esta frequência. sabe, doutor, custa-me confiar em si, o doutor é praticamente um adolescente, ainda por cima andou em medicina, conseguiu provavelmente quase tudo o que ambicionou. sabe lá perceber isto de que falo. sabe lá perceber que eu com 30 anos tenho que voltar à escola e não sei a qual. enfim, sim, vamos marcar a próxima consulta. não doutor, nunca tive vontade de me suicidar, fique descansado. sim, doutor, cortei o cabelo, muito, mas porque precisei de um acto de coragem, precisei de concretizar um desejo há muito vencido pelo medo, não foi para ficar desfigurada. adeus, doutor, até à próxima."