fomos estar com a minha avó tão essencial
para os meus amigos é a avó que tem alzheimer,
ou a avó que está em alcochete
para mim é a minha avó
que,
como dizer isto sem ser demasiado piroso?
me susteve
na altura da vida em que só com ela me sentia
a grande mulher que geria tudo
com uma paciência que, cada vez mais, sei ser tão difícil tanto tempo
com uma eficácia que sustinha a família
e repete-se, sem ser por acaso, a ideia de suster
sustentar
suportar
a minha avó
sempre tão doce e cúmplice comigo
sempre ao meu lado nos exigentes almoços de família
sempre com 1 pacote de maltesers na gaveta de cima do móvel da sala
sempre com 100escudos ao domingo quando me esperava no topo da alameda à hora em que todos dormiam
a avó que à Baixa trocar os cromos das minhas colecções
a avó que insistia dar-me 1 bilhete de metro e 2,5 escudos para telefonar num emergência
a avó que sabia que eu gastava o dinheiro das urgências em pastilhas
a avó que me escrevia o rascunho das cartas para eu enviar ao meu padrinho
a minha avó doce
que eu não consegui ver sofrer quando morreu o meu avô
que me teve tão menos por eu não conseguir presenciar tamanha dôr
que chorou abraçada a mim, com a casa cheia de inems, quando ele morreu depois de estar melhor
que chorou à porta de casa quando a amiga sofia lhe comunicou a morte da mãe
que chorou para dentro quando foi traída pela amiga de sempre
que passou uma noite a vomitar, enjoada, depois de uma viagem em que lhe adormeci ao colo e ela não me quis afastar
e
ontem
tratou o sebastião por "ela"
proclamou não existir "boneco" mais lindo, "nem netos, nem avós"
sorriram muito um para o outro
fizeram muitas festinhas um ao outro
numa enorme confusão de palavras
mas numa enorme clareza de afectos
é isto que importa na vida,
acho
domingo, 18 de maio de 2008
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4 comentários:
sim :)
bem....
não é minha avó, mas senti os meus olhos a piscar.
os avós são tudo.
tão só os afectos e as emoções...
Estou a ler tudo (meio à pressa)e a gostar muito.
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